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INTERVENCION DEL DELEGADO DEL PRESIDENTE DE CIMAS, Q:. H:. JOAO PEDRO ROSA FERREIRA, EN EL ENCUENTRO DE EDUCADORES PARA LA PAZ, EN GALICIA - ESPAÑA PDF Imprimir Correo electrónico
EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA: UMA CAUSA DA MAÇONARIA UNIVERSAL

 

"O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade"

Fernando Pessoa, "Horizonte", in Mensagem, 1934

"A educação pública dos povos deve ser adequada à forma dos seus respectivos governos. Uma boa legislação e uma boa administração pública formam e aperfeiçoam a moral dos povos; uma legislação e uma administração más produzem o efeito contrário."

Hipólito José da Costa, Correio Braziliense, nº 175, 1822, pp. 589-592

Exmo. Senhor Coordenador do colectivo Educadores pela Paz, Prof. Xesús Jares,

Exmos. Representantes das Entidades Organizadoras do XIX Encontro Galego e XII Encontro Galego/Português de Educadores pela Paz,

Caros Participantes neste Encontro,

É com enorme satisfação que tenho a honra de apresentar a todos saudações fraternais em nome do Presidente da Confederação Interamericana de Maçonaria Simbólica (CIMAS), Dr. Elbio Laxalte Terra, e em meu nome pessoal.

O tema proposto para debate neste Encontro, a Educação para a Cidadania, é porventura o mais importante que se coloca à reflexão dos educadores e um dos mais difíceis de concretizar no processo de ensino/aprendizagem das nossas crianças e jovens. A forma como promove, incentiva, leva à prática e cumpre (ou não) a educação para a cidadania é a pedra de toque da escola pública que o Estado laico oferece à comunidade que representa.

A Cidadania é a expressão da consciência livre e a ética baseada nesse imperativo de consciência, anterior ao próprio constrangimento da lei, confere uma qualidade superior ao Estado de Direito.

A Educação para a Cidadania é o veículo por excelência da transmissão e interiorização dos valores morais plasmados no lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade que tem guiado o progresso da humanidade há mais de 200 anos e codificado na Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pelas Nações Unidas em 1948.

É pela educação nesses valores que formaremos cidadãos conscientes, informados e activos na afirmação daqueles direitos. Ela é a única barricada democrática que, pelo exercício constante do espírito crítico, nos defenderá – a nós, aos nossos filhos, aos nossos educandos - de sermos transformados num futuro próximo em consumidores acéfalos, presa do pensamento único, nivelador pela mediocridade, massificador e facilitista, tão ao sabor dos tempos que correm.

A defesa dos valores acima enunciados é tanto mais árdua nas sociedades actuais quanto a perseverança nos princípios está hoje fora de moda. Não é tarefa fácil dos educadores lutar contra o imediatismo reinante, de que é exemplo a influência todo-poderosa da televisão generalista na formatação de gostos e mentalidades. No entanto, essa luta é condição indispensável para o progresso – outro valor que, depois de ter sido inflacionado durante décadas, anda agora muito desvalorizado, para não dizer esquecido.

Faz parte da educação para a cidadania recuperar a conotação positiva do princípio do progresso, entendendo como tal um processo constante de aperfeiçoamento individual e colectivo visando emancipar a humanidade da ignorância, da dor física, da escravidão – literal e figurada – e de toda a servidão material, moral e espiritual. Caminha-se na senda do progresso quando se faz participar o conjunto dos seres humanos em todos os benefícios que possam proporcionar a civilização, a cultura, a tecnologia e as descobertas científicas, sem esquecer a protecção do património ecológico do Planeta.

A qualidade da escola pública que temos permite-nos aquilatar a qualidade do Estado democrático em que vivemos. Em Portugal como em Espanha, no Uruguai, no Brasil, na Argentina, no Chile ou no Equador foram dados nos últimos anos passos muito importantes para a aplicação prática da educação para a cidadania. Contudo, não chega. É preciso ir mais além. É preciso que as autoridades detentoras do poder legítimo representativo dos cidadãos dotem as escolas e os educadores dos meios necessários para prosseguirem o seu trabalho, em cooperação com a sociedade civil.

É precisamente no âmbito da sociedade civil que a Maçonaria não abdica de participar, de forma activa e militante, na educação para a cidadania. Como instituição iniciática, essencialmente valorativa, científica, filosófica, filantrópica, cultural e progressista, que trabalha pelo advento da justiça, da solidariedade e da paz no seio da sociedade humana em que vive, a Maçonaria Liberal Moderna assume a sua quota-parte de responsabilidade na construção do Estado laico. Na sua prática quotidiana, ensina a tolerância e combate o fanatismo, principalmente aquele que se traduz na exploração da ignorância. Proclama a liberdade do pensamento e de consciência, considera que a elevação ética, a emancipação e o progresso dos homens e dos povos se consegue através da educação, do estudo e do trabalho, em benefício comum, de modo a assegurar a justiça e a paz entre todos, sem distinção de raça, sexo, credo ou nacionalidade.

O património histórico da Maçonaria é testemunho da autêntica "forja de cidadania" que a instituição foi e continua a ser. Muitos dos patriarcas da liberdade em Portugal e em Espanha, tal como a maioria dos libertadores da América Latina, do Brasil ao Equador, da Argentina ao Chile e ao Uruguai, foram ao mesmo tempo protagonistas e impulsionadores da democracia e da educação, valores que aprofundaram no seio da instituição a que pertenciam.

Vem a propósito citar o exemplo de Hipólito José da Costa (1774-1823), patriarca da imprensa brasileira e fundador do primeiro jornal político liberal a defender o sistema constitucional em Portugal e no Brasil, o Correio Braziliense (1808-1822). Nascido na Colónia do Sacramento, actual Uruguai, formou-se em Leis em Coimbra (1798), foi preso, acusado de pertencer à Maçonaria, por ordem do célebre Intendente da Polícia de Lisboa Pina Manique (1802), passou três anos nos calabouços da Inquisição, de onde conseguiu fugir para o exílio em Londres, onde permaneceu o resto da vida. A acusação estava correcta: Hipólito da Costa era na verdade culpado de ser maçon, o que sempre foi um crime para os espíritos intolerantes e obscurantistas. Com uma agravante: ele acabara de fazer uma longa viagem de estudo à então jovem república dos Estados Unidos da América, onde iniciara uma importante obra de carácter científico e técnico. Ora foi o mesmo Hipólito da Costa que, ao longo de 14 anos, defendeu com insistência nas páginas do seu Correio Braziliense, o "melhoramento" daquilo que na época se chamavam as "classes inferiores" através da generalização do ensino público, na linha do optimismo herdado das Luzes – uma autêntica educação para a cidadania. Testemunham essa sensibilidade os repetidos anúncios a obras de pendor filantrópico e o acompanhamento da polémica sobre as "Poor Laws" no Parlamento e na Imprensa britânicos. Exemplo dessa preocupação é a profunda "Análise do folheto intitulado A New View of Society, ou Ensaio sobre o princípio da formação do carácter humano e da aplicação do princípio à prática, por um dos juízes de paz de S. M. no condado de Lanark, Londres, 1813". Trata-se da célebre obra de Robert Owen, precursor do chamado socialismo utópico - e também ele maçon – que Hipólito integra na corrente filantropista, elogiando a sua proposta de reforma social através da reforma da educação.

Contemporâneo de Hipólito da Costa foi o suíço Johann Pestalozzi (1746-1827), outro nome grande da pedagogia e da história da educação, igualmente membro da Maçonaria. Mais perto de nós, o maçon catalão Francesc Ferrer (1859-1909), fundador da Escola Moderna, pagou com a vida a coerência com os seus ideais.

Eis um legado que nos confere pesadas responsabilidades, mas a que nos mantemos fiéis como elos de uma cadeia que nos precede e que, muito depois de desaparecermos, continuará unida no tempo e no espaço.

João Pedro Rosa Ferreira